quinta-feira, 20 de setembro de 2012


Optei pelo calor do texto e estou a falar-lhe disso. Então olho para o lado

e vejo que meu jeito de alimentar é misturar a ração com um pouco de molho. O caminho todo é repousar neste aroma.

Há um mar preciso, que chamarei de pensamento, que responde às estações do ano: ora congela-se, ora se agita, ou se aquece. E, do mesmo modo, há o fundo do olho, que chamarei de instante.

Ambos se procuram.  

Se haverá encontro, se há um barco, ou o mensageiro a atravessar as espécies, se há alguém que sobrevive desta comunhão  e autoriza-se a contar-se, não sabemos.

Percebo que estou a falar-me, já deixei de conversar contigo. Mas, de água viva ou de sonho, prossegue-se,

Pois há coisas que vivemos de um outro lado.

Esta língua que me permite escrever, não me põe a entender.  O mar oferece-se aos olhos. Mas, e o olho,
nasceu para ofertar-se ao mar? E chegará o homem de olhos até aqui.

Caberá a nós continuar. E é de trindade que falaremos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012


 
Pão: o hábito de amar demais segue o curso originário de cortar o pão. Os dedos vão perfurando a densidade da massa, os mesmos dedos que antes lhe deram forma, vão aos poucos rachando o alimento ao meio, e o pão a multiplicar-se em pedaços o estranho modo de aumentar-se inteiro na entrega.
a escrita adquirira um aspecto entalhe na madeira
mas foi acordar hoje e
a visita da vida toda
foi escutar que falar em nome de
me privava daquela árvore

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

esta paixão seca

em alto-mar as peles entregam-se ao sal

não se pode continuar, a humanidade está em risco

a superfície em sede,

e continuam falantes, os amantes,

molhados

o amor cava um espaço de montanha

para proteger o animal da chuva


Os espinhos pregam-se às roupas

A moça ocupa-se da limpeza da janela

Enquanto alguém pensa o que fazer com o pote sem uvas que recebeu no verão passado

 

Estou pronto, neste quarto amarelo

A dialogar com as palavras. Elas podem fechar o sol. Elas podem tudo.

Estou pronto, a professar com as estantes

que aprendi a brincar de labirinto, mas não sei o que faço quando me batem à porta



As sombras são palavras mudas

brotam em cima da casa fechada

 

Quanto mais unidas as mãos estiverem

mais longe a carne pousará


nossos joelhos aprendem a olhar para o chão,

mas o peito nasce para tocar o nu

 


na mata de eucaliptos, de sombra exposta, porém ensurdecedora

somos uma lembrança jogada ao telhado

a desejar o centro da folhagem

quarta-feira, 22 de agosto de 2012


Porque as uvas estão a nascer
ou se sonhamos com uma pequena caixa de relíquias
há um homem a transportar-nos para o mais alto do rio
sem perguntar-nos acerca da volta. Tu sabes. Apenas aguarda a hora de sentir

Algo de imaterial como a palavra
que viaja do tempo mudo,
a misturar-se com o sol.  

O poema estanca o leito com a mão suada da terra

As duas margens do encontro
o desejo de não terminar as frases
e o silêncio que precisa falar
 

sábado, 18 de agosto de 2012

os mais fortes pensamentos são os que se encontram próximos da estrutura de uma declaração de amor. Procuras as palavras e a sua sequencia, mas o ponto de origem é um sentimento. Estou a sentir tanto que até era capaz de pensar, diz alguém. Maria Zambrano

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

e foi assim
que a palavra rompeu-se:
                      não sou uma pessoa

entre o sono e a vigília
o pensar era de areia
                por entre os muros da lucidez

a matéria nascia para o porosidade
assim como o ser nascia para a luz

quinta-feira, 9 de agosto de 2012




A caneta com que se escreve está a manchar nossa própria roupa.

A imaginação não evita a morte. A imaginação não tem coragem de dobrar a folha

 e escutar o sol que canta na pele da planta

para que a noite nasça lua de um mesmo lugar.


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

na casa de Llansol

não haverá nunca um novo mundo, pensei, mas há um outro neste _______________ e continuei a ler (LL1, 19)



sexta-feira, 13 de julho de 2012

A carne da minha fala não é metáfora
A carne da minha fala necessita de controle


A conversa vive por um triz,
Promíscua

segunda-feira, 9 de julho de 2012


A visita, se nos mentisse. Voltaria atrás carregada de medo.

E não se ouviria mais o canto de uma criança na neve saltando de cor em cor.

Mas, aonde cresce a coragem. Ou  

das coisas que não acontecem por não terem cabimento. Tem-se noticias do há.

Entre os meus seios, o que renasce, contra o furor higienista de minhas mãos.

O que é vivo, aceita esta duração, mesmo sem nenhuma porta para abrir.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

os iluminados ao entrarem no clarão do azul dirão aos peixes:  eis a presença a nos servir. E pregarão as cifras da experiência de um livro fechado. Mas, se quase o corpo, escutar a cabra, ou o inteiro a berrar,
é o verbo, a volver o medo. Pois não há olho sem lei.
E um feixe de alguém se anuncia, na entranha polida
Cerca
Aberta
De começar

quinta-feira, 14 de junho de 2012


Um sistema inserido na boca para consertar a mordida. Uma prótese, dessas que o humano usa para garantir o que ainda resta de orgânico. E esta começa a machucar a própria carne, a macerá-la por dentro. Não haveria quem arrancasse a delicadeza de um arame farpado perfurando o vivo. A não ser o lenhador e o alicate da noite, sujo de entortar as cercas do início de um dia. E, com as duas mãos cravadas no centro da boca da moça, se esbarram:

     são sujas as distâncias de afeto.

quarta-feira, 6 de junho de 2012


há muito tempo que não venho. Há pelo menos três gerações.

Mas de dentro do corpo da mulher de pedra eu vi a extração. Era a espessura cheirando sexo aquecendo a luz branca de um centro cirúrgico chamado aula.

Fumegava no cangote a trapaça e eu quase me fiz filhote da palavra, mais uma vez.

Mas o menino W. estava ali. No seu modo de não-estar cuspiu o vôo do pássaro
ainda morno, no ovo envergonhado,

que a voz de T. captou no parto,

e por suas pernas escorreu um líquido viscoso, chamado dizer

Uma pipoca, ou melhor, um fragmento de pipoca, muito pequeno, correndo no chão da praia caçado pelo vento. O menino L. corre atrás dela, por toda a orla, e eu, correndo atrás do  menino L. Atrás de mim, a ferida aberta da paisagem, correndo junto,

Perguntei-me se a mulher-escrita não dormiria neste acontecimento. E realizar o encontro-embate da ferida com a pipoca seria o poema.  Do sangue pulando no pescoço quando se corre, do gesto que nasceu no mar antes da palavra, do olho que se afoga em sorrir

para junto da pipoca.

 O poema era uma cadeira branca que eu tive medo de sentar.

Mas aconteceu que o menino L. telefonou perguntando se iríamos à praia novamente.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

porque amo LLansol


De dentro da bacia de prata carregava a tinta azul que encobria meu rosto matriz

a impregnar lençóis brancos, a parede branca e o outro que encontrasse. Uma mancha desforme impressa. Borrão azul e identidade.

Llansol ofereceu-me uma toalha dizendo: Limpa a tua face.

Eu disse-lhe: não é chegada a minha hora.

- Há uma única diferença entre o beijo e o poema.  O beijo pode ser dado mais tarde,
O poema                                                           .É de hoje que se trata.

do aparato dentário para a mordida, que contenha o quente do suor.
da palavra escolhida na palavra herdada, do anúncio nos olhos da denúncia,
a confiar-se numa fina abertura do tecido no imenso da terra.  deste sim. em pequenas letras,
que traz para perto do corpo o animal a nascer.

O encontro escreve poemas,
dá forma ao abraço do aéreo,
e ao beijo de amanhã.