por onde começo

Entre os binômios

Desconfio daqueles que têm sempre o que dizer, dos que nunca sentiram dor, do Homem como centro do mundo, de quem acredita que Deus é a resposta, de quem diz que o jovem no passado era mais consciente e menos alienado, de quem tem muita pressa ou muita calma. Desconfio de quem pensa muito e de quem nada pensa. Desconfio de quem fala demais e de quem não tem nada a dizer.
Confio em quem fala sobre o que está acontecendo no tempo do acontecimento, em quem percebe que descondicionar o corpo do outro é tarefa que passa por si, que se demora no olho de alguém, em quem experimentou a conversa como caminho, em quem não separa teoria de prática, corpo e intuição, bondade e maldade, e não põe tanta luz nas palavras: verdade, moral e evolução.


Começar esta reflexão pelo binômio desconfio/confio é uma tentativa de organizar a quantidade de forças que jogam quando um grupo de pessoas se juntam em torno de uma tarefa comum: a formação. Perguntas que sempre aparecem: quem forma quem? Onde a formação se dá? Em que momento o aprendizado acontece?

Mas gostaria de ater-me à eletricidade de alguns binôminos. Começo com as palavras: confio e desconfio. Dentro delas habita a palavra fio. E esta talvez seja a palavra mais adequada para continuarmos aqui. Como numa torrente elétrica, com volume e massa, estar na presença de pessoas com abertura às possibilidades de encontro sempre faz desabar o corpo do ouvinte.

Os fios elétricos dos encontros nos cobram, acima de tudo, a presença. E é difícil reconstituir a eletricidade que passa pelo corpo nesta hora. Sabemos que a interpretação (que nos distancia do acontecimento) dissolve o privilégio da presença. E, portanto, é necessário instaurar outro discurso que recupere a intensidade desta teia.

A escolha aqui é dizer-se por meio de binômios ou pêndulos que se interconectam, a lembrar-nos que o nosso corpo não é estático e se move a partir do contato com seus extremos. Como uma pulsação que aparece e desaparece assim se configura o nosso coração: ora aumenta de tamanho ora é menor que uma noz.

Tomaremos impulso a partir da consciência dos limites de qualquer história a ser contada: ao apresentarmos o que aprendemos no espaço de formação já estamos em outro lugar, lidamos com a história dos fatos e não conseguimos segurar para onde a experiência nos leva. Em primeiro lugar: tornar-se educador é um processo de conquista. É uma negociação constante entre a Tradição e Traição. E esta disputa se dá no espaço interno, lento, cotidiano de escutar o que se diz, como se diz e em nome do que se diz.

Ao chamarmos a arte para conversar também nos deparamos com outro binômio: a estética e a ética. A arte nos cobra presença. E, pode parecer um paradoxo, mas, à medida que a arte nos cobra esta presença, ela também nos tira do centro. E essa é a Estética anunciada: tornamo-nos diálogo com a arte à medida que cedemos ao convite de estar com as coisas, para fora dos nomes, fazer parte do que não está dito ou sermos testemunha de outro dizer. E é neste horizonte que se revela outra Ética: a ética do estar juntos, das sobreposições, das concomitâncias, do compartilhamento de verdades.

Aí se mostra algo raro: o poder que todos nós temos da metamorfose. Somos seres mutantes que carregam uma tradição. E somente aquele que é capaz de manter abertas as vias de acesso entre os homens (Elias Canetti) é que vê a oportunidade de saltar. Ou seja, a traição da história só é possível quando nos inserimos numa tradição.

Mas no espaço do encontro, qual o discurso correto? Como usar a palavra adequada, qual a postura mais indicada? Nestes três anos de experiência acredito que um dos maiores aprendizados foi encurtar a distância entre o falar e o agir. O discurso convidado para o encontro não é o discurso explicativo, não é preparação para a vida, simulacro de uma situação real ou resolução de situações hipotéticas. O discurso convidado para o encontro é aquele que instaura um “corpo político”, ou seja, um “corpo do acontecimento”, no tempo presente. Como se realizássemos o exercício de atenção constante, para falar do que está acontecendo (e nos acontecendo) e assim estar na dignidade do acontecimento. Como diz Fernando Bárcena: acredito que estar à altura do que nos passa é algo como aceitar o acontecimento e nomear a despedida. É despedir-nos de algo, morrer em algo e nascer para outra coisa. (A dignidade de um acontecimento. Sobre uma pedagogia da despedida)

E neste morrer e nascer é possível experimentar que a verdade não está na disputa da razão, ou seja, naquele que quer sempre “ter razão”, mas está no centro da roda, quando o sentido surge aos olhos de todos, para quem quiser colhê-la.

Permitimo-nos ler nesta horizontalidade. Pois todo grupo é um texto a ser lido. Convivemos e naturalmente passamos a ler os corpos. A configuração da sala é uma frase a ser dita. Arrumar o espaço é polir as palavras. Indicar leituras, imagens e referências de artistas é sublinhar este texto, pinçar o que há de mais intenso. E assim se faz a leitura da realidade, e neste pequeno contexto de criar uma língua comum se experimenta uma política, a micropolítica.

E uma das primeiras tarefas para não acomodar-se nesta “língua comum” é estranhar as palavras, questioná-las, debruçar-se um pouco mais demoradamente nelas. Tanto as mais rotineiras como aquelas que fundamentam nosso modo de viver: a palavra sujeito, a palavra personalidade, a palavra identidade, a palavra poder, a palavra homem, a palavra educação e tantas outras... e assim entramos no campo da macropolítica.

E, por acaso, não fazemos política quando encontramos nosso modo próprio de dizer e falamos por metáforas, por imagens, por blocos de sentidos ou de modo entrecortado? O que se conta aqui é não subestimar a capacidade do outro de avançar poeticamente na fala e no sentido, neste texto que se inscreve no encontro. Para ler a realidade é necessário lançar mão de tudo o que se tem para dizer. Aqui se encontram a poética e a política.

E quem somos? Educadores? Adultos? Jovens? Homens e Mulheres? Aprendizes? O que se pensa disso quando a arte/o espaço da conversa acontece? O que se quer é estar em permanente espaço de disputa. Na urgência dos sentidos. Atuar na realidade, negociar com outras formas de se organizar e intervir. E é saudável experimentar a criação de pequenos espaços de convívio quando eles acontecem.

Como no mito de Sísifo estamos condenados a classificar eternamente o mundo. Até que o inesperado fura os esquemas de padronização em que nos submetemos. Eis a boa nova: somos texto e podemos ser re-lidos. E, como afirma Barthes, só a releitura pode salvar um texto da repetição.

Neste espaço de encontro/desencontro é possível o plural de que o sentido é feito. Está posto o desafio: romper com o modo de pensar de quem dá e quem ganha. De quem oferece e de quem recebe.
Um aprendizado?
Estar em formação é jogar o jogo dos binômios.
Para não se ler em tudo o que se faz, sempre a mesma história.