quinta-feira, 1 de março de 2012

Ela equilibrava-se em suas cordas vocais e, por amor, eu dizia-lhe para caminhar em riste, pois na outra ponta haveria o silêncio.

A travessia é feita por uma bailaria desqualificada, não se preocupe. Dizer é uma caixa de frutas dentro do pomar.

Confiante, disse: - tenho medo de viver no vaso, evoluir no vaso, sem perceber qualquer árvore da calçada-

(e, antes do final da frase notou que uma raiz crescera em seus pés)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Meu coração nunca foi lugar de conversar com Deus. O silêncio sim. Mas sempre quando estou quieta de olhos fechados, vejo uma lanterna passando pela superfície do corpo de uma mulher. E ali começamos a conversar: eu, Ele, o suor, a textura e as vergonhas.
"um homem foi morto pelo seu espelho e, no entanto, era belo". Gonçalo M. Tavares

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

- Escuta, estou te dizendo para nascer de novo. É preciso buscar no meio fio aquele desejo de socar a vida de palavras firmes, amor. Por um tempo éramos tolos ao falar em filho de Deus, lembro que te rias e mudavas de assunto. Mas essa angustia, V., esse comer por dentro sem repouso, esta vontade de preencher a fala com fatos, bananas, travesseiros, isso já não tropeça mais em mim. Tá fraco, gosto de um veneno maior, um veneno que me coloca de novo no escuro do corpo escuro de um homem negro e cego, de osso escuro e velho, pedindo-me um banho. Eu vou, V., dou um banho nele sem pensar, não sei como cheguei ali, é preciso segurar o corpo passarinho para que não se quebre, não tem luz e a cama está toda suja. Se me lembro do cheiro? Não há cheiro dentro do ato. Há o ato sem quebra, sem tempero. Ali era ser Deus, V.. ]Não me pergunte, não posso falar mais sobre isso.

-Dar banho em alguém é ser Deus?

-Se banhares o corpo do outro em teu corpo, sim.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Hoje, decidi passar o dia a recortar o jornal, buscar imagens nas revistas que se acumulam na prateleira da estante, visitar os blogs de amigos próximos- ler demoradamente o que escrevem, vasculhar as revistas literárias, conhecer novos escritores. Abrir de novo o livro rabiscado. Comprar revistas novas na banca de jornal, ler as matérias atentamente, desde o índice até a capa final. Hoje,

eu só posso olhar a face que vier, até ficar com um rosto qualquer,

antes de me posicionar, demorar no olho que não é meu.

Ler todas as escritas de um dia,

pois há algo aqui. Que o pensamento ou o som de um relógio não contam

Hoje, quero a operação reversa: da bala que vai
para o corpo atingido,

Não sou a faca. Sou a mulher golpeada pelo filho

pois não compreendo
O que falta à inteligência da proximidade

Hoje, não vou acorrentar-me na febre da víscera.
Quero o corpo inteiro
fora de mim.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Na sala de aula, cadeiras em círculo e três pessoas aguardando o professor. Entra a faxineira da escola que retira o lixo e escreve na lousa:

Por um vômito da linguagem, não de si. A romper a cisterna da sintaxe,
para não mais guardar distância entre nós e as coisas.
Se tenho raiva na escrita e na fala é porque minha respiração não as separou
Como Domênico antes de botar fogo em si.
Atiça, o excesso de lucidez, atiça.
Se cheirei a face deste lixo
foi por necessidade de explodir antes que o humano se rompa
como uma caixa de tomates rolando prateleira abaixo

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Um casal come tranquilamente no restaurante quando uma criança segurando uma caixa de pano de prato vem em sua direção. Os três se olham e ouço falarem em voz alta:

Sou o humano que cheira. Se agora encolho meus dentes,

É porque há mais objetos que o necessário por aqui. Posso viver com as pontas do meu coração queimando, mas não suporto beber o chá numa xícara que não viveu.

Não se pode adubar a terra com o corpo que não é seu.

Hoje, é como se alguém muito importante tivesse morrido.
Por necessidade.


E há que se abrir as paisagens, para encontrar pessoas.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

VIDA= Espaço
EU= Levantar-se
NÓS= Esta Manhã

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

hoje,
antes de escrever, olho para todos os lápis,
quero apontá-los um a um

(não sei o que fazer com o pé quase seco de feijão exausto de parir. Já é hora de replantar as mudas de alecrim. As uvas estagnaram-se. O manjericão não pára de crescer. O pequeno limão parece conformado. É preciso tirar o coração do sol)

mas nada me diz tanto quanto
-descrever o negro com a unha-

domingo, 29 de janeiro de 2012

Você se parece com a minha gata.

Te pego solta, brincando numa loja, em meio aos cabides. Você vai pra casa e não te vejo. Tenho medo de apertar teu corpo e espremer tua respiração,
Mas vou até o seu sono ver como está. Você faz pouca resistência.

E percebo como sou pequena. Mas sei o que é cuidar.

Você cresceu e eu atrás. Saía e voltava. Nossos segredos. Teve filho no meu colo. Era úmido de responsabilidade. Eu fui os olhos da tua mãe

e te joguei atrás de um muro,
Sem saber que o muro pode nos livrar de um incômodo,
mas a escrita não.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Livro da Sabedoria II

Do livro de Jó:

- antes de sair, verificar se a ideia está colada ao corpo-
- ao descer do trem, o chão ainda se move-
- não se ocupa em alguém o espaço de dois-
- a roupa da santa se desgasta com o tempo-
- o guarda-chuva preto no quintal é a memória do morcego debaixo da pele-
- peixe branco se come com as mãos, com bocado de farinha e molho temperado no prato-
- a superfície hospeda o verso-

sábado, 21 de janeiro de 2012



















sou uma pequena flor caída de seu ramo
no chão lilás-

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

hoje guardei um trocado no canto do bolso
-é preciso ter alguma reserva - pensei
pode ser caro não desistir de mim

oração da manhã

É ao Espírito Criador a quem me devoto
Cumpro meu dia, deito-me cansada sem planos para amanhã
Ele me cava uma massa quente por dentro, que tem ouvidos e pulsação. Interrompe minha garganta quando se sente sufocado

É ele que me faz ter vontade de andar de mãos dadas com a rua
Olhar um rato e não me assustar
E ver um sapato jogado no meio da casa e estranhar a existência inteira

É ele que enrijece meu corpo como quem se esqueceu de doar
Que se debate na miséria do jornal
Que vai à cracolândia, à Gabriela Llansol e Jodorowsky como quem segura uma caneta

Que lê a terra
E arranca as palavras debaixo da unha
É ele, que retira a panela de arroz debaixo da chuva
e me devolve para a mesa da fome

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Era portadora de uma mensagem. Só faltava decidir o lado.

E no meio desta história havia um homem sério e bigode grande dizendo que a vida pode ser ativa ou reativa. Era uma bandeira que trazia nas mãos, como a Vontade de Poder. A mensagem fora escolhida: partiu a menina de calça branca no meio da perna, cabelo curto e, entre os dentes,

a voz a correr pela soleira da porta, deitar no balcão, amansar as ovelhas, atuar no vivo.

Voltando:

É difícil perceber que não se tem um plano para a vida quando se pensa que tem.

Vi uma mulher forte cair e suportei-a em meus braços. Não havia qualquer escuta de onde viesse,
Era ver o tecido mole e acolher, desta experiência, era limpar e guardar.

E assim se faz um amuleto de tecido, solda e erva.

Põe a erva de São João para fazer crescer a Anomalia da terra. Se as botas do ditador ainda te encaminham, envolve a erva em tecido cru, véu de noiva e linho nobre, costura seu entorno como um coração, até que seja o dorso inteiro

Voltando:
Tem solda no pescoço dela. E um ovo tocando a terra

sábado, 7 de janeiro de 2012

Para Luis

Há escrita entre o homem e a sua palavra
Escreve-se porque a mão em que caberia a humanidade foi mutilada pela língua do sentido
Escreve-se
porque no silêncio dos roedores há mais indignação
porque o homem rasga o missal sem nunca ter desobedecido o próprio pai
Escreve-se,
por uma liturgia em que todos comam a palavra final

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

No ponto de ônibus, ouço a seguinte conversa:

- O batente da porta dos fundos de minha casa está apodrecendo. Vi que a madeira está quase sem tinta, com uma textura oca e úmida, quase se desfaz na mão. O batente está frouxo, mas não totalmente solto. Entre ele e a parede há uma fenda, um espaço por onde escorre uma poeira fina escura e,
Não consegui limpá-lo ontem. Ainda com o pano molhado na mão,
Coloquei o dedo naquela fenda e espalhei a poeira de dentro pela superfície do meu braço. Fiquei, por um instante, suspensa. Tinha luz.

E luz era a qualidade do desaparecimento.

A outra responde:
-Um animal quando vai morrer se recolhe. O homem, quando vai morrer, se recolhe das palavras. Não te parece estranho: por mais que a gente se esforce em dizer
o silêncio ainda será grande
pois o corpo é água
E as águas reverberam?

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O centro da casa é a mesa a escrever. Por um motivo:
o seu teto é frágil. não garante proteção contra a chuva,
nem guarda a comida de amanhã