quinta-feira, 27 de novembro de 2014

gosto de saber que não sou para o vento
isso nos permite um esbarrão
antes de uma chuva qualquer

de minha parte, só sei dizer
terra, folha e raiz
num só golpe de ar

mas não sou capaz de ventar com elas

entre a terra e a folha
         há o vento
entre a folha e a raiz
         há o vento

e entre a raiz e o vento, há o ventre

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Poema de Edson Bueno de Camargo

toda mulher descende
da grande e primeira mãe
a mãe de terra e raízes úmidas
como fornalhas a gerar nos ventres criaturas viventes
do primeiro ao último ser que respira

traz em seu lago de sangue
o laço do cordão umbilical
e segura nossas mãos onisciente

beija nossos dedos
tal qual quando  nascemos
e carrega-nos doce e leve ao seu arrego
apaga de nossa memória os pesadelos
e o passado
destrói e ponte
e torna a estrada terreno selvagem

e sem retorno
voltamos a ser fetos
presos aos afetos de quem nunca quis nos abandonar
voltamos a ser só ventres nas raízes de abetos
da floresta onde tudo começou

toda mulher descende
da primeira e grande mãe
e nos abriga entre suas pernas com fogo
para não mais retornarmos ao mundo
é como morrermos
e só muito depois

acordarmos 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A morte
Roxa no tecido
Roxa na pele
Rocha na voz

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

de todas as paisagens, de todos os centros, de todas as potências há um nó não significado, um eixo não acessório mas acessível, não definível com exatidão. Preciso chegar a esse dom, a este ato de aproximar-me do nome e assim limpar o cansaço da dispersão. Estou em um quarto há muitas manhãs. O sol foi tão intenso que avermelhou minha visão. Mesmo assim continuei a ler. Continuei a buscar no texto
o aberto da leitura sem direção, algo que pudesse dar contornos à minha natureza.
Então, repouso a escrita sobre outros livros, tenho um caderno dentro de outros cadernos.
Haveria de autorizar-me a assinar um livro, que nesse tempo não se diferencia de jardim, cidade ou janela.
Que os ventos me perdoem por desejar ser "aquela que escreve", de possuir a casa, de desejar estar acompanhada por aqueles que "despertam a minha natureza".
Não quero desejar, mas desejo.
Sonhei um dia que seguia a máquina de entoar palavras com a força de dobrar a esquina;
Sonhei um dia em ser o silêncio de uma casa simples, de chão batido, a comer pão com molho e café na caneca de alumínio;
Sonhei um dia em não desistir do chão do sacrifício.
Mas as coisas são tão coisas que me inviabilizo. Agonizo em sentidos absolutos.
Se posso pensar na palavra livro,
cabeça, tronco e membros,
vou ao rio descalça,
sofrendo com o frio das letras,
que as palavras desse nome sejam para sempre o seu mistério, vida primeira
Livro de páginas,
páginas paisagens

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Estive ausente na aula da terceira pessoa do plural.
Parei no “Vós”. Gostei tanto do vício de dar corpo ao incorpóreo, a tudo o que chamamos de Vós, vós ou voz que me distraí do que viria a seguir,
Aliás, o “Nós” e “os nós” também me fisgaram. Não porque têm sentido, mas porque sentidos me são doados ao conjugá-los,
Mas, “Eles”, confesso que não sei o significado. Volto sempre ao início e passo a fundi-lo com a primeira pessoa do singular.  Emito um EULES. Somando todos Eles a um Eu.

E soa impróprio terminar assim.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

“um ser capaz de outro destino que não o seu é um ser fecundo”  LEVINAS

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Embora não conseguisse dizer nem bom dia em liberdade,
Ângela soltou um ruído em muitas vozes. Três ou quatro ao mesmo tempo.
Era uma manifestação multivocal que os animais não reconheciam. Ficaram à espreita.
Alguns disseram que era o exercício antes da palavra, outros diziam que era o fundo musical debaixo da pele de todas as coisas
quando decidem levantar seus corpos à superfície.
Pela reação do asfalto, eu diria que ela só estava tentando dizer: Ingá, a grande raiz.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

hoje o dia cresce
a cidade inspira
há ventos por todos os lados e não há homens a serem salvos
não há homens verdadeiros ou falsos
há senhoras saindo do mercado com suas violetas
hoje a cidade cresce
porque um homem cresce
suas palavras não se comportam mais como espirros no ar
tudo está perto
e respira tanto fora de si
que seus olhos compreendem

o mundo nunca nasceu

eu perguntaria para sempre como é o silêncio
justamente para não tê-lo
exatamente para mantê-lo oculto
pregado
na face destas flores que sorriem
depois de terem sonhado

sábado, 7 de junho de 2014

da experiência religiosa, pecado é a palavra mais presente. Não por que metia medo ou me enchia culpa. mas porque convivia entre a gente. adorava ver o padre com os olhos vermelhos de vinho, enrolando a língua na leitura; tinha também o casal correto que, na quermesse, deixava escapar gritinhos e tapinhas na bunda, e o coroinha de unha preta, que fazia fogo no parque pra queimar lagartixa antes da missa. Hoje, quando enfio a linha na agulha e inicio um bordado, a única palavra da qual me sinto livre é impecável.
Só porque não se sabe bordar é que se borda.
E isso nos torna tão próximos do pano de chão como do lençol.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

o tempo é dar
ao som do cavo,
cavíssimo espaço do há
que se confirma no bojo aberto, verá
ainda há e a mais- intuo templo, tremo
a única palavra doo, aqui está
e te entrego,
haverá


quinta-feira, 22 de maio de 2014

se disseram alguma vez "no princípio era o verbo" e você nunca mais esqueceu era porque ali continha a dobra da estrada. aquela que só você entra, mas que precisa de, no mínimo, duas vozes, um silêncio e uma pedra.
sei que não foi uma visita nem um desvio da regra, era um outro modo de estar, a mesma respiração, mas com uma volta mais ampla, o ar contornava os objetos da sala trocando calor para, no mesmo instante, voltar ao nosso corpo. e simplesmente olhar
era oração.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

a última maçã da fruteira
escorregou pela porta ontem
fazia um trabalho de chuva
rolou na rua, derretia nos buracos
não pude segui-la, ventava tanto
mas eu também senti o calor
da voz da água comendo o estado semente da maçã
casca no possível do nascer
era de saciar toda a gente
e pelas paredes podia-se ouvir
- terra fervente debaixo do asfalto-

domingo, 18 de maio de 2014

O Livro Sagrado é do ramo do tecido. Ele contém um inventário das sementes e animais que dão origem ao fio e ao tecer. Há nele um capítulo das mulheres esquimós que mascam a pele de urso para amolecer a trama e vestir.
Em outro capitulo, Slava Polunin compõe uma casa de retalhos.
E há, ainda, o dia em que abracei a janela pela primeira vez,
solta
nos farrapos da cortina.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

quando percebeu que não conseguiria passar a noite
ao lado de alguém
despediu-se de sua própria lua
e foi morrer ao sol
se ponho minhas mãos sob a mesa
sem que elas apontem, escrevam ou cortem algo,
elas entram em estado de azul
Simplesmente
posso até acompanhar com o rosto
a tranquilidade de mudar de cor
e dizer: Estou aqui
mas as pernas
as pernas não sabem o nome
deste azul



sábado, 10 de maio de 2014

Se Deus exite
desconfio que mora nas esquinas

de cada maçã

página, paisagem


após encontrar o homem que não via há 36 anos,
sentaram-se à mesa e ela dividiu o livro, dizendo:
a primeira parte é sua,
a segunda é do filho mais velho,
a terceira é da filha,
a quarta, daqueles que se plantaram na terra
a quinta, dos que vão bater à porta.
E só assim tomou sua parte na leitura.
a palavra de tão morta, está.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

a escrita não é mais um exercício diário, deixou de contornar o pensamento ou inventar modos de anunciar o porvir. Vez ou outra aparece no timbre da voz. Vez ou outra se oferece no rosto.
Olhou para cima e percebeu que arrumar as telhas da casa arruinaria o dia.
A escrita vai para onde se sente viva.
Cão que esqueceu de dormir e se põe a latir mais que seu latido, a pedido da noite.

terça-feira, 15 de abril de 2014

a chuva fina ilumina teu cabelo
mínimo corte da imensa noite fria

sábado, 18 de janeiro de 2014

Abri a porta porque, dentre outros desejos, escutei a frase: podemos contratar mão de obra barata e formá-los, assim eles vão ficando com a nossa cara. Após alguns anos, tive que me dar conta de que eu era a mão-com-obra-de-barata. E este é o pano de fundo de muito chão que piso. Transitar de um lugar ao outro sempre à espreita de um chinelão a me cutucar.

É preciso educar as baratas. Elas respondem. Uma vez, aquela massa inadequada e desajeitada aos poucos foi tomando a forma que se sonhou. Há quem acredite. Mas, pra forjar tanto assim é necessária certa distância do próprio fosso e repetir as mesmas rotas. É aquele dia em que o metrô está sempre na mesma estação.

Acontece que a minha cara sempre foi esburacada, mesmo antes das espinhas romperem. Sempre tive espaço em branco para preencher com o que fosse mais adequado na ocasião. Sem perceber. Um colar de sementes ou um lenço amarrado, a meia colorida num vestido assimétrico ou os óculos azuis num corte radical de cabelo. Passei com nota mediana em todas as provas, mas passei. Pude até ter sobrenome.

Mas o buraco sempre aparece. E foi exatamente nele que tropecei agora. E não é um furo que estou a comunicar ou dar notícias da impossibilidade. Não, a minha mão-de-obra-com-baratas não está a pesquisar nenhuma novidade nem decorou nenhuma citação para embutir nesta frase. Minha mão de barata apenas olhou para sua própria obra, que já estava lá, fechada, nos passos da História.



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

vão entrar na sua casa limpando os sapatos, sentarão nas cadeiras e passarão o tempo a folhear os livros e as conversas,
vão entrar no seu corpo, ocupar as paredes com instruções de um abraço e sugerir a comunicação de teus pés com o chão,
vão te dar as palavras criação e educação para que não pare de respirar
e você inventará uma sequência delas para conseguir sair do sufoco: agenteprecisadeconvivência
passará a dar a mão aos inventores e aos ressoadores
aos poucos teu gesto estará suficientemente respeitável
e poderá partilhar seus sonhos em qualquer mesa de refeição

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

respeitável público:
admirai-vos uns aos outros
Rente ao milagre. Lambe o gato.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Dirijo um carro sem vidros nas janelas
Ando de moto com os seios à mostra
--Escrita--

Uma mulher cresce? Sai do seu tamanho, alguma vez? Se sim, o que faz à mesa? Qual a pergunta que lhe foi confiada? Haveria de esperar o encontro para além da sua estatura ou é preciso correr, mesmo sem pernas?
 Amo mais a palavra milagre do que tudo o que se denomina milagroso. O destino jamais substituirá o acontecimento.


Está calor, posso ver. É a luz mais aberta que já vi. No entanto, respiro gelado. Só se escuta a areia levantada em vento. O corpo não consegue seguir ereto. É visto. Há um único caminho:
-seguir em direção oposta ao mar-.
A mulher que vivi diria: Deserto. 
Mas o que escorre não pode ser limpo.
Quanto mais longe do mar, mais próximo da luta. A vegetação corta. Sutileza de um chicote. Não me importo em sangrar.
É tão seco que jorra. É tão seco que brota.

Andar agora é arrancar dois pés do chão.