terça-feira, 23 de março de 2010

faz calor na pedra
a aquele que traz a rocha
já pisou em árvore seca
e no barulho de cada passo
fez silêncio de guardar semente

domingo, 21 de março de 2010

quem vai à minha frente?
qual presença que cega
é a sede por dentro
palavra que sai rasgando o nome
dois pulmões soando juntos
dois porões tocando céu

terça-feira, 16 de março de 2010

Abri a porta de casa. A fala jorrava a biografia por entre as juntas. Já não podia desdizer-me. Não portava nada. Era estado único. Olhos nos olhos do corpo original.

domingo, 14 de março de 2010

terça-feira, 9 de março de 2010

a toda noite o menino santo perguntava-me:
e então, beijaste o inteiro da loucura?
e eu respondia:
hoje não, posso ainda mais.

quarta-feira, 3 de março de 2010

quando a fala encosta na chuva
o silêncio da poça aparece

segunda-feira, 1 de março de 2010

As cadeias estão vagas. Corro com o gelado no rosto.
Até as luzes acendem
Antes eu vejo. Porque algo em mim agradece
Março estrada
Setembro sutil. Há uma nova ordem que não se esvai
Subida última
para nascer

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

nunca havia tocado nesta casca tão fina
e se fosse possível encontrar rios debaixo da pele
qual cor teria o nome do que levita entre nós?

deitei no campo de flores
para ser sombra em tempos de sol

cantemos Glória em altas vozes
enfileirados nas calçadas

enquanto nossas crianças
roubam os tapetes das casas
e costuram as sujeiras
para dormir o perdão

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

diga-me por entre os intervalos dos eucaliptos
o teu sim. Não outro,
mas um sim a mais que ele próprio
um sim que é borda e irrompe
o excesso do sim, o cansaço inalcançável
que ora pede rosto em sombra, ora em sol
e caminha ao som das folhas
de mãos dadas
ao que faz do mesmo,
um outro sim

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

de todos os altares que ergui, trago somente os pés sujos no lençol. Qual era o alimento antes da fala? Acaricio o sentido contrário destes poros e toco o que me alcança. Peço para não retornar à lucidez de uma vez. Guardarei estas pequenas intimidades enquanto a Água não vem.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

morangos no parapeito
mergulhados em seu peso
pediam uma mulher de pele atenta

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

desenho muscular
de um cavalo
alinhavando terra e mar
cadência do destemido
rosto de si
santo seja o nome
deste solo que nos impele
a amarelar com as páginas
e carregar entre os dentes
o fogo que arrasa o chão

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

era vasto
o que o som das copas
me traziam com o vento
atrás de mim, uma voz
carregada de cestas e frutas, semeava:

consegues, no excesso do silêncio,
conviver com tudo o que dissestes
até agora?

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

na superfície do rio, o altar
aconselho-me com os sábios habitantes dos canteiros
ao lado destas margens querendo alargar-me

tem um animal que pede aqui dentro

uma gota a mais nesta língua nascente
um horizonte febril
nas palavras difíceis de fazer
é o espelho olhando o sol
é novo o dia

e as elas me usam
num canto peregrino
como centelhas que saltam
sou isca mergulhada na luz

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

no limite dos dedos
toco o que não posso
arranho a lucidez
-um instante-
o acesso negado
a única porta
sou a chave
que trago nas mãos

sábado, 30 de janeiro de 2010

O Idiota, Dostoieviski

"quem não tem o solo
debaixo dos pés
não tem Deus"
calhas secas, paredes úmidas e folhas amarelas na mesa, vá
contra o que chega é a descrença que mata,
queres tanto se não és
mora nos intervalos do que move e nada altera seu lugar
ao menos que diga o que é próprio e sempre cai
de ti

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

fogão sujo
caneca amassada
fogo levantando
leite com voracidade
manhã em detalhes
avental retalhado
manufatura do recolhido
renovados cheiros
som da colher:
tempo que ajudou a cumprir

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

sou o fim da viagem
numa casa de veraneio
não vês que os espaços em branco
cobram silêncio e presença?

eu não comungo da morte
desçam aqui os homens
que plantaram aquelas cruzes
no alto da colina

reconheço minha falta de gosto
não sou mais que os cantos daquela muralha
em cadência ocre, verde e amarelo-negro
mas viveremos para sempre deste modo doméstico?

não amanhã, mas agora
neste Aberto de silêncio e presença
cólera ao meio-dia
desça e ouça
os estalos desta morada nova:
aqui estou.