ele escreve atrás de mim a volta do encantamento da palavra
há dois metros de mim, atrás,
eu quero marcar tudo o que eu puder
com a ponta do lápis
achar um lápis no meio do caminho,
coçar atrás
de tudo o que eu puder
um canto, uma palavra
olhar nos olhos da cara de um lugar
agora
entre dois riscos e um rio
acostumada a nadar a lápis
emerjo em folhas,
caminho e ponta
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
[A origem]
"A origem foi – talvez – a ansiedade violenta
de Deus de uma origem .
O hausto de uma violação”, disse ele.
O objecto é para o pensamento o mesmo
que a flor é para a abelha: o seu alimento
e o seu mel.
“ Ai, quem poderia pensar o pensamento,
no lugar onde o pensamento se pensa e não
onde ele é reflectido? “ disse
ele
e acrescentou: “ o que nós chamamos
de pensamento é apenas um pouco do que se
nos revela e de onde retiramos uma vida e ,
de vez em quando, uma obra “ .
O que se pensa no pensamento dever ser
considerado em primeiro lugar.
O pensamento é experiência; experiência
do pensamento, mas também
pensamento ou experiência.
Pôr o seu pensamento em prática.
Consagrá-lo à vida.
Eu penso. O pensamento revela-me. No entanto,
ele é a minha revelação, assim como eu sou a
sua determinação.
A minha responsabilidade começa
com o meu pensamento.
Edmond Jabés
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
quarta-feira, 29 de abril de 2015
O que acontece quando não acontece? Numa conversa, por
exemplo? Quando a promessa é a de um encontro em que um fluido de vida vai
instaurar-se e, no entanto, é apenas um rodear, um estado de superfície, um engatinhar.
O corpo vai entrando no desvio, opta pela fala indireta, dá até pra rir, mas o
incômodo continua lá, numa panela fechada de um acordo tácito que não autoriza
a destapar. Caso alguém aconteça, eu aconteço. Caso alguém inicie eu engato.
Mas porque o caso? Porque não eu? Porque não ninguém?
Do tombo, do cair, do esbarrão, da porrada, do atropelo. Não
se vive sempre aí.
E nos intervalos? No levantar, no caminhar, no erguer o
rosto? Sim, pois existem. Lavo meu rosto pela manhã à espera de um soco. E se a
toalha for macia demais para o golpe? Nada de vida? Ou como isso se chama?
Entre um acontecimento? Entre um acontecimento.
Só aconteceria se eu soubesse a diferença
do entre
e do acontecimento.
e do acontecimento.
quarta-feira, 22 de abril de 2015
desde o acontecimento igreja, quando ouvi pela primeira vez a palavra outro, a casa era entrar em partilha, a fé era almoço. eu queria morar aglomerado, habitar o miolo que une os seres. então, desde lá, já não posso esquivar, nem querer um nome único. já não posso dizer nada que afaste o vírus da permanência, o encontro-broto, o peito fogo.
uma verdade fluxo
a exalar o sentido da proximidade
não quero fôlego, nem querer
estou em intimidade
amém
uma verdade fluxo
a exalar o sentido da proximidade
não quero fôlego, nem querer
estou em intimidade
amém
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
A casa de Hóspedes
O ser humano é uma casa de hóspedes.
Toda manhã uma nova chegada.
Toda manhã uma nova chegada.
A alegria, a depressão, a falta de sentido, como visitantes inesperados.
Receba e entretenha a todos
Mesmo que seja uma multidão de dores
Que violentamente varrem sua casa e tira seus móveis.
Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.
Eles podem estar te limpando
para um novo prazer.
Mesmo que seja uma multidão de dores
Que violentamente varrem sua casa e tira seus móveis.
Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.
Eles podem estar te limpando
para um novo prazer.
O pensamento escuro, a vergonha, a malícia,
encontre-os à porta rindo.
encontre-os à porta rindo.
Agradeça a quem vem,
porque cada um foi enviado
como um guardião do além.
porque cada um foi enviado
como um guardião do além.
Rumi, (mestre Sufi do sec. XII)
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
gosto de saber que não sou para o vento
isso nos permite um esbarrão
antes de uma chuva qualquer
de minha parte, só sei dizer
terra, folha e raiz
num só golpe de ar
mas não sou capaz de ventar com elas
entre a terra e a folha
há o vento
entre a folha e a raiz
há o vento
e entre a raiz e o vento, há o ventre
isso nos permite um esbarrão
antes de uma chuva qualquer
de minha parte, só sei dizer
terra, folha e raiz
num só golpe de ar
mas não sou capaz de ventar com elas
entre a terra e a folha
há o vento
entre a folha e a raiz
há o vento
e entre a raiz e o vento, há o ventre
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Poema de Edson Bueno de Camargo
toda mulher descende
da grande e primeira mãe
a mãe de terra e raízes úmidas
como fornalhas a gerar nos ventres criaturas viventes
do primeiro ao último ser que respira
traz em seu lago de sangue
o laço do cordão umbilical
e segura nossas mãos onisciente
beija nossos dedos
tal qual quando nascemos
e carrega-nos doce e leve ao seu arrego
apaga de nossa memória os pesadelos
e o passado
destrói e ponte
e torna a estrada terreno selvagem
e sem retorno
voltamos a ser fetos
presos aos afetos de quem nunca quis nos abandonar
voltamos a ser só ventres nas raízes de abetos
da floresta onde tudo começou
toda mulher descende
da primeira e grande mãe
e nos abriga entre suas pernas com fogo
para não mais retornarmos ao mundo
é como morrermos
e só muito depois
acordarmos
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