quarta-feira, 29 de abril de 2015

O que acontece quando não acontece? Numa conversa, por exemplo? Quando a promessa é a de um encontro em que um fluido de vida vai instaurar-se e, no entanto, é apenas um rodear, um estado de superfície, um engatinhar. O corpo vai entrando no desvio, opta pela fala indireta, dá até pra rir, mas o incômodo continua lá, numa panela fechada de um acordo tácito que não autoriza a destapar. Caso alguém aconteça, eu aconteço. Caso alguém inicie eu engato. Mas porque o caso? Porque não eu? Porque não ninguém?

Do tombo, do cair, do esbarrão, da porrada, do atropelo. Não se vive sempre aí.

E nos intervalos? No levantar, no caminhar, no erguer o rosto? Sim, pois existem. Lavo meu rosto pela manhã à espera de um soco. E se a toalha for macia demais para o golpe? Nada de vida? Ou como isso se chama? Entre um acontecimento? Entre um acontecimento.

Só aconteceria se eu soubesse a diferença

do entre
e do acontecimento.

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