segunda-feira, 23 de maio de 2016

tenho que parar de deixar os objetos me afetarem tanto
será que depois de muito tempo de existência
uma casa é capaz de gerar suas próprias luzes?
nada apagaria sua condição de resto
exceto o rito

segunda-feira, 7 de março de 2016

vou com as mãos
arremessada ao vento
segurando uma folha
dando voltas e nunca voltando
ao mesmo tempo
em que a mão arremessa a folha
e segurar era parar o vento
eu vou urinar no chão
e acender uma vela a cada centímetro
que me separa do trem

e quando ele chega
não subo
faço retiro de silêncio
no meio da multidão

porque minhas veias são minúsculas
mas posso jorrar

domingo, 28 de fevereiro de 2016

costura-me o instante
em forma de eterno

domingo, 14 de fevereiro de 2016


o sangue da língua
escorre no corpo da agulha

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O canto escolheu a pedra
E juntos foram cachoeira

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

uma coisa que não acredito:  amor.
acreditar é nos números, nas palavras, em deus.
nome próprio, carta assinada.

amor é trabalho de derrubar o chão da casa
e que seja agora.


não há estado de fato "em si", é preciso, ao contrário, introduzir primeiro um sentido antes que possa haver estado de fato.

um nietzsche misturado a barthes,

e
a janela de ler

sábado, 26 de dezembro de 2015

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por 
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela. Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema: Para guardá-lo: Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: Guarde o que quer que guarda um poema: Por isso o lance do poema: Por guardar-se o que se quer guardar.

Antonio Cicero

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Lá do céu todas as casas são azuis
Aqui do chão todos os céus são de telha

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

4 dias com dor de cabeça e você lê uma notícia e diz não tem importância. 4 dias e você olha para o homem que ama e diz não tem importância. são dias que a chave não importa, as janelas partem e a comida queima. de uma dor que  não importa exatamente. porque depois de quatro dias você passa a sentir o fio do cabelo que cai da sua cabeça. sua decisão de soltar da pele,  de deitar-se por entre os outros fios, barulho febril ao roçar um no outro, marcha fúnebre agarrando-se aos que estão presos para, num golpe final, cair ao chão, debatendo-se, só.
depois de 4 dias,
cada fio de cabelo bate à porta.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

ele escreve atrás de mim a volta do encantamento da palavra
há dois metros de mim, atrás,
eu quero marcar tudo o que eu puder
com a ponta do lápis
achar um lápis no meio do caminho,
coçar atrás
de tudo o que eu puder
um canto, uma palavra
olhar nos olhos da cara de um lugar
agora
entre dois riscos e um rio
acostumada a nadar a lápis
emerjo em folhas,
caminho e ponta



terça-feira, 27 de outubro de 2015

vi minha mãe mais velha
e ela me disse que era eu

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

[A origem]


   "A origem foi – talvez – a ansiedade violenta
de Deus de uma origem .
 O hausto de uma violação”, disse ele.

  O objecto é para o pensamento o mesmo
que a flor é para a abelha: o seu alimento
e o seu mel.

  “ Ai, quem poderia pensar o pensamento,
no lugar onde o pensamento se pensa e não
onde ele é reflectido? “ disse
ele
e acrescentou: “ o que nós chamamos
de pensamento é apenas um pouco do que se
nos revela e de onde retiramos uma vida e ,
de vez em quando, uma obra “ .

  O que se pensa no pensamento dever ser
considerado em primeiro lugar.

  O pensamento é experiência; experiência
do pensamento, mas também
pensamento ou experiência.

  Pôr o seu pensamento em prática.
Consagrá-lo à vida.

  Eu penso. O pensamento revela-me. No entanto,
ele é a minha revelação, assim como eu sou a
sua determinação.

  A minha responsabilidade começa
com o meu pensamento.

Edmond Jabés

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Deus: o mais móvel de todos os homens

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

poesia:
fazer jus
aos pés
do retirante
uma escrita leve
mão dançando a folha no ar
funil
feitura
curvatura de uma vida integrada
voz que escorre em tule,
fluir ato e pensamento:
túnica de uma única pele
Aquiestar

quarta-feira, 29 de abril de 2015

O que acontece quando não acontece? Numa conversa, por exemplo? Quando a promessa é a de um encontro em que um fluido de vida vai instaurar-se e, no entanto, é apenas um rodear, um estado de superfície, um engatinhar. O corpo vai entrando no desvio, opta pela fala indireta, dá até pra rir, mas o incômodo continua lá, numa panela fechada de um acordo tácito que não autoriza a destapar. Caso alguém aconteça, eu aconteço. Caso alguém inicie eu engato. Mas porque o caso? Porque não eu? Porque não ninguém?

Do tombo, do cair, do esbarrão, da porrada, do atropelo. Não se vive sempre aí.

E nos intervalos? No levantar, no caminhar, no erguer o rosto? Sim, pois existem. Lavo meu rosto pela manhã à espera de um soco. E se a toalha for macia demais para o golpe? Nada de vida? Ou como isso se chama? Entre um acontecimento? Entre um acontecimento.

Só aconteceria se eu soubesse a diferença

do entre
e do acontecimento.