sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

vão entrar na sua casa limpando os sapatos, sentarão nas cadeiras e passarão o tempo a folhear os livros e as conversas,
vão entrar no seu corpo, ocupar as paredes com instruções de um abraço e sugerir a comunicação de teus pés com o chão,
vão te dar as palavras criação e educação para que não pare de respirar
e você inventará uma sequência delas para conseguir sair do sufoco: agenteprecisadeconvivência
passará a dar a mão aos inventores e aos ressoadores
aos poucos teu gesto estará suficientemente respeitável
e poderá partilhar seus sonhos em qualquer mesa de refeição

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

respeitável público:
admirai-vos uns aos outros
Rente ao milagre. Lambe o gato.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Dirijo um carro sem vidros nas janelas
Ando de moto com os seios à mostra
--Escrita--

Uma mulher cresce? Sai do seu tamanho, alguma vez? Se sim, o que faz à mesa? Qual a pergunta que lhe foi confiada? Haveria de esperar o encontro para além da sua estatura ou é preciso correr, mesmo sem pernas?
 Amo mais a palavra milagre do que tudo o que se denomina milagroso. O destino jamais substituirá o acontecimento.


Está calor, posso ver. É a luz mais aberta que já vi. No entanto, respiro gelado. Só se escuta a areia levantada em vento. O corpo não consegue seguir ereto. É visto. Há um único caminho:
-seguir em direção oposta ao mar-.
A mulher que vivi diria: Deserto. 
Mas o que escorre não pode ser limpo.
Quanto mais longe do mar, mais próximo da luta. A vegetação corta. Sutileza de um chicote. Não me importo em sangrar.
É tão seco que jorra. É tão seco que brota.

Andar agora é arrancar dois pés do chão.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

o tempo não muda
o tempo não cura
curva
curva
e às vezes
pára

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Aula poema em Belo Horizonte

o bordado, o tecido...
é de texto que se trata







bordar a intensidade do afeto
a última nitidez antes da palavra

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

VOLVER O TEMPO DA GRAÇA


VIVER EXPOÇA

sábado, 23 de novembro de 2013

língua infância (ontem no metrô)

- No céu tem carrocinha, mãe?
- O que você tá dizendo, menina?
- Carrocinha de levar cachorrinho, mãe, tem né?
- Não sei não.
- O Jesus não tem uma carrocinha no céu pra levar os cachorros embora?
- Não, menina, Jesus não faz nada disso, deixa ele quieto.
- Ah, então não foi o Jesus que pôs minha cachorrinha na carrocinha?
- Eu já te disse, menina, sua cachorrinha morreu.
- E o que é morrer, mãe?
- Morrer é ser atropelado. Sua cachorrinha foi atropelada.
- Por um carro preto?Você tirou foto mãe? Por que você não tirou foto da minha cachorrinha atropelada? Você tira foto de tudo, mãe...
Que bobagem menina, não sei a cor do carro.
- Então era amarelo! Era amarelo, né, mãe?
- Para de ser boba! Já disse que não lembro direito o que aconteceu.
- Mas eu sei o que aconteceu, mãe. Foi o dono da creche, né? Foi o dono da creche que atropegou minha cachorrinha.





segunda-feira, 28 de outubro de 2013

sábado, 26 de outubro de 2013

águas são todos os dias
e se uma fruta explode no caminho
eu só posso dizer: semente
nunca antecipá-la
nunca ler sem antes abrir os olhos nas águas
pele vocacionada
dos dias

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

entre o estreitamento e a bússola vital
ressoou
era um deus se chamava diapasão

terça-feira, 15 de outubro de 2013

à espera
do dia
estirado
na pele
bem-aventurados os alucinados, porque deles será o real
bem-aventurados os desiludidos, porque neles o pensamento se fará humano
bem-aventurados os corpos que morrem, porque deles será a sensualidade do invisível
bem-aventurados os desesperados, porque deles será a restante esperança
bem-aventurado sejas tu, ó texto, porque nos abres a geografia dos mundos
bem-aventurada sejas tu, ó Terra, porque tua será a explosão que levará o vivo a todo o Universo (LLANSOL, ATJ, 146-7).

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

há dias tenho sonhado com meu irmão e, quando acordo, abraço o rosto da palavra morte.
foi ele quem me deu a mão para entrar. hoje tenho um acúmulo de plantas, quatro paredes e um ajuntamento de animais

gostei de nascer

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A NOITE


A noite, o que significa verde, tons azulados e este pouco
vermelho muito escuro que, irregular, corrói por baixo a página.
Escrevo, apressadamente, a palavra charco, a palavra estrela.
Escrevo nascimento.Escrevo pastores e reis. Escrevo que quebro
uma lâmpada e que agora está escuro.

Yves Bonnefoy